sábado, abril 01, 2006

Fé entre os Espinhos

Pode o crente perder a salvação ou "cair da graça"?
A Bíblia é enfática em afirmar a segurança dos crentes. Para dar um exemplo, Jesus disse a respeito das suas ovelhas: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.28).
Por outro lado, uma dificuldade que temos é de explicar como alguém que freqüentou nossa igreja e mostrou-se crente durante um certo tempo, de uma hora para outra parece que “abandona a fé”. Se sabemos que o verdadeiro crente não pode perder sua salvação, então o que aconteceu?


Se houve essa “queda” é porque nunca houve nesse coração a verdadeira salvação. O famoso texto de Hebreus 6 (usado pelos defensores da perda da salvação) fala de pessoas que tiveram um certo contato com Deus (Hb 6.4-5) e em um determinado momento de suas vidas “caíram” (Hb 6.6). Não devemos entender nesse texto a palavra “queda” como sendo qualquer pecado. É verdade que qualquer pecado faz separação entre Deus e seus filhos provocando a diminuição da comunhão. Nesse texto, entretanto, “cair” é uma atitude definitiva, o abandono por completo da fé evangélica, a negação das verdades essenciais do cristianismo. Uma distinção clássica entre esses dois sentidos de “cair” pode ser vista através dos exemplos de Pedro e Judas. Ambos pecaram contra Jesus, mas Judas apostatou da fé – caminho que o conduziu à morte – enquanto Pedro se arrependeu e tornou-se um dos grandes líderes da igreja primitiva.
A. A Falsa Fé
O autor de Hebreus fala de certo tipo de gente que tem um padrão de fé (se é que podemos chamar de fé) muito parecido com aquele demonstrado por Judas. São pessoas que “foram iluminadas, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro,” (Hb 6.4-5). É possível que alguém experimente Deus em tamanha profundidade sem nunca ter sido salvo? Sim é possível.
João Calvino afirma: “…não vejo razão porque Deus não toque os réprobos [ímpios] com o sabor de sua graça, ou não ilumine suas mentes com algumas chispas de luz, ou não os afete com algum senso de sua benevolência, ou em alguma medida não grave suas Palavra em seus corações”[1].
Sabemos pela Palavra de Deus que Jesus é a luz do mundo (Jo 9.5; 12.46). Ele é luz para quem? Antes de respondermos essa pergunta, devemos lembrar que os incrédulos têm seus olhos cegos pelo diabo para que não enxerguem a luz do evangelho de Cristo (2Co 4.4). Para que a luz brilhe, entretanto, não há a necessidade de ser vista. O sol nasce mesmo que um deficiente visual não o veja. Assim, a luz do evangelho de Cristo brilha sobre todos sem exceção, mesmo que alguns não enxerguem: “ a saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem” (Jo 1.9).
Essa luz do evangelho é a pregação da palavra. Temos a tendência de achar que o não eleito sempre será indiferente à pregação do evangelho, mas não é bem assim. Podemos usar como exemplo a parábola do semeador. Nela Jesus fala da semente que foi lançada em quatro tipos diferentes de solo, mas em apenas um frutificou. Em outras palavras, quatro foram iluminados, apenas um teve seus olhos abertos.
Vejamos o que Jesus explicou sobre a semente caída à beira do caminho: “A que caiu à beira do caminho são os que a ouviram; vem, a seguir, o diabo e arrebata-lhes do coração a palavra, para não suceder que, crendo, sejam salvos” (Lc 8.12). O diabo é chamado pelo próprio Jesus de “pai da mentira” (Jo 8.44). Os que ouviram a Palavra sem que esta viesse acompanhada da crença vívida em Cristo, tiveram seus entendimentos semeados com a mentira do diabo, responsável pela incredulidade.
A seguir, Jesus discursou sobre uma semente plantada em um outro solo: “A que caiu sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não têm raiz, crêem apenas por algum tempo e, na hora da provação, se desviam” (Lc 8.13). Esse tipo de solo representa pessoas que não foram transformadas pelo evangelho, mas tão somente emocionadas pelo evangelho. Não que haja qualquer problema com a emoção: no capítulo anterior do Evangelho de Lucas, uma mulher se emocionou enquanto ungia os pés de Jesus com um caro perfume (Lc 7.36-50); Paulo chorou mais de uma vez (At 20.19, 31; Fp 3.18); Jesus chorou diante da morte de Lázaro (Jo 11.35). O que está sendo condenado por Jesus são as emoções superficiais. Emoção por emoção sem que seja acompanhada por uma mudança real de vida. Jesus estabelece uma maneira de se provar alguém para saber se a emoção e impulsão demonstradas são verdadeiras ou superficiais: “…na hora da provação, se desviam” (Lc 8.13). Passar por tribulações prova a fé de todos. Somente os verdadeiros crentes perseveram: “Bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1.12). Aqueles que abandonam a fé demonstram que na verdade nunca tiveram fé, somente emoções vazias e superficiais (1Jo 2.19)
Eis então o terceiro tipo de solo: “A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer” (Lc 8.14). Este grupo também demonstra alguma resposta ao evangelho sem, no entanto, demonstrarem a fé verdadeira.
Tanto a semente lançada em solo rochoso quanto a que caiu entre os espinhos ameaçaram desenvolver-se; chegaram até a germinar, mas isso não é suficiente porque a salvação é caracterizada pela produção de frutos e não pelo germinar. Através dessa parábola podemos entender com maior clareza como alguém pode ser iluminado.
Quando alguém se propõe a viver debaixo dos padrões do Reino de Deus, algumas bênçãos lhe são estendidas. Mesmo no Antigo Testamento, época em que Deus só se revelava através do povo de Israel, Salomão consagrou o templo de Jerusalém e disse entre outras coisas: “Também ao estrangeiro que não for do teu povo de Israel, porém vier de terras remotas, por amor do teu grande nome e por causa da tua mão poderosa e do teu braço estendido, e orar, voltado para esta casa, ouve tu dos céus, do lugar da tua habitação, e faze tudo o que o estrangeiro te pedir, a fim de que todos os povos da terra conheçam o teu nome, para te temerem como o teu povo de Israel e para saberem que esta casa, que eu edifiquei, é chamada pelo teu nome” (2 Cr 6.32-33). Aqueles estrangeiros que se juntassem aos israelitas e obedecessem as Leis seriam abençoados com as mesmas bênçãos.

B. Exemplos da Falsa Fé
Existiu uma razão muito especial para o autor do livro de Hebreus falar de uma forma tão pesada como aquela. Alguma coisa no comportamento dos seus ouvintes lembrava-o de um exemplo passado; um exemplo da própria história dos hebreus: os quarenta anos de peregrinação pelo deserto. Os capítulos 3 e 4 discorrem em parte como os israelitas que saíram da escravidão no Egito pereceram no deserto por causa da incredulidade.
1. Os Hebreus que Peregrinaram no Deserto
Se fizermos uma análise mais atenta, aquela geração do povo de Israel se encaixa bem na descrição daqueles que são impossibilitados de renovação para o arrependimento:
Descrição da Falsa Fé (Hb 6.4-5)
Comportamento dos Hebreus no deserto
foram iluminados
A mensagem da salvação foi amplamente pregada ao povo.
provaram o dom celestial
Receberam dádivas divinas: desde o livramento da escravidão até a água e a comida durante a jornada no deserto.
tornaram participantes do Espírito Santo
Alguns entendem que isso tem a ver com a vida em comunidade do povo escolhido, já que a igreja de Deus é o lugar de trabalho do Espírito Santo. Israel foi ajuntado por Deus como povo escolhido.
provaram a boa palavra de Deus
Os judeus puderam comprovar que Deus não falhou em suas promessas. Prometeu libertar e cumpriu. Prometeu mantê-los e cumpriu. Prometeu castiga-los em meio à desobediência e cumpriu.
provaram os poderes do mundo vindouro
Nenhum outro povo experimentou com tanta intensidade os poderem do mundo vindouro como os israelitas. Ou seja, Deus revelou-se a eles de maneira prodigiosa: sarça ardente, cajado em serpente, dez pragas, mar se abrindo, vara florescendo, coluna de fogo, água da pedra, maná, codornas, rio se abrindo...

2. Himeneu e Alexandre - 1Tm 1.19
Paulo lembra de outros exemplos de uma fé reprovada: “mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé. E dentre esses se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem” (1Tm 1.19-20).
Paulo é muito claro em dizer que Alexandre e Himeneu “naufragaram na fé”. Para explicarmos o que isso quer dizer, temos que recorrer às experiências vividas pelo apóstolo Paulo porque é daí que ele está tirando a comparação. Sabemos que Paulo passou por muitas dificuldades em seu ministério. Por exemplo, algo terrível aconteceu quando ele foi escoltado para Roma a fim de ser julgado por César. O barco em que estava naufragou (At 27.27-44), mas pela graça de Deus todos se salvaram. Quando Paulo diz que ouve naufrágio na fé, a figura de seu próprio naufrágio deve ter sido seu guia para estabelecer a comparação.
O naufrágio pode ser fruto de uma falta de direção do barco. A consciência do cristão é seu guia e abandonar a consciência cristã é o mesmo que desprezar o timão e o leme do navio. Assim como aconteceu no naufrágio de Paulo, na hora do perigo tudo o que não é essencial deve ser lançado fora. Himeneu e Alexandre lançaram fora o que tinham de mais precioso: a boa consciência.
A existência de uma boa consciência cristã foi a diferença entre Saulo e Paulo. Entre um blasfemador, perseguidor, insolente (1Tm 1.13) e o apóstolo. “Transbordou, porém, a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus” (1Tm 1.14). Quando um coração é atingido pela graça, fé e o amor de Deus demonstrado em Cristo, nenhuma vida permanece igual.
Himeneu e Alexandre revelaram uma fé reprovada (ou uma falsa fé); a) crendo e propagando heresias; b) não vivendo em santidade.
3. Demas – 2Tm 4.10
Outro exemplo citado por Paulo de uma fé que se revelou falsa é personificado em Demas: “Porque Demas, tendo amado o presente século, me abandonou e se foi para Tessalônica; Crescente foi para a Galácia, Tito, para a Dalmácia” (2Tm 4.10).
A chave do entendimento se encontra no fato de Demas ter amado mais o presente século. Já vimos como uma reação inicialmente positiva ao evangelho pode não redundar em uma fé verdadeira. Usamos na parábola do semeador as sementes lançadas em solo rochoso e entre os espinhos para comprovar isso. O que é dito sobre a opção de Demas se enquadra muito bem na descrição da semente lançada entre os espinhos:
Demas
Semente entre os espinhos
Amou o presente século
“A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer”. (Lc 8.14)
Parece que Jesus divide os espinhos em três principais [2]: 1º Espinho – Cuidados ou Preocupações da Vida. Esta preocupação condenada por Jesus extrapola os limites do planejamento pessoal e se traduz por ansiedade. A ansiedade é amplamente combatida pela Bíblia por ter um alto grau de destruição (Fp 4.6; Lc 12.4-12, 22-34; Mt 6.25-34; 10.19-31). 2º Espinho – Riquezas. Embora possuir dinheiro não seja pecado, ter amor a ele é (1Tm 6.10). Jesus está condenando a busca desenfreada pelo dinheiro (Lc 12.13-21; 16.19-31; 18.18-24). 3º Espinho – Prazeres da Vida. Isso se refere tanto a prazeres que são nocivos em si mesmos (embriaguez, drogas, jogos de azar) quanto àqueles que são nocivos se não forem moderados (esportes, jogos, diversões). As pessoas que são atingidas por estes espinhos nunca chegam a produzir frutos verdadeiros.
Embora Demas estivesse com Paulo por ocasião de sua primeira prisão (Cl 4.14), sua fé não foi perseverante. Ele buscou seu próprio interesse antes das coisas relacionadas ao Reino de Deus.
Conclusão
Não podemos deixar de lembrar que a obediência a Deus é a maior prova da nossa fé: “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14). Estes Deus têm seguros consigo e jamais se desviarão em definitivo da fé um dia professada.
Aqueles que permanecem, mas logo se desviam enquadram-se bem no relato de João: “Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1Jo 2.19).

[1] João Calvino, Hebreus, (São Paulo, Paracletos, 1197), p. 153.
[2] Willian Hendriksen, Lucas Vol 1., (São Paulo, Cultura Cristã, 2003), p. 571.

3 comentários:

Halei Rembrandt disse...

Salve Rev Fe... louvado seja Deus pela praticidade usadas na sua palavra nesse texto escrito... muito bom... louvado seja Deus pelo seu dom.... e parabens por usa-lo de forma pratica e sabia...

valeu pastor...

Paz...

Vinícius Cássio disse...

Boa noite Pastor!
Quero registrar novamente minha admiração.
O conteúdo teológico sadio e verdadeiro dos teus textos, acredito eu, que toda a Igreja conhece. O mais legal neste blog é ver a organização, objetividade.
Não sei se o senhor sabe, mas aprendo muito ao ler teus textos e esboços de sermões ... a introduzir, desenvolver tópicos, concluir em um objetivo claro e simples. É muito legal isso.
Obrigado por tudo. Nunca perca a noçaõ do valor de seu trabalho.
Com carinho, Vinícius

Jesus é o Rei disse...

excelente texto. Deus continue abençoando!

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