Nenhum personagem bíblico teve tanta popularidade quanto Jesus; há mais de cem referências nos evangelhos de momentos em que Jesus estava ministrando a multidões. A popularidade foi tanta que o Mestre se viu em situações inusitadas como quando tentaram proclamá-lo rei à força (Jo 6.15); outras vezes o assédio das multidões obrigaram-no a praticamente fugir (Jo 5.13).
É pertinente perguntarmos qual a razão de tamanha popularidade. O que Jesus proporcionava ao povo que despertava tanto interesse? Vejamos:
I. O que o povo busca
A. Entretenimento
Jesus em seu ministério terreno se compadeceu das multidões “porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.” (Mt 9.36). Por isso, Jesus ao ver o sofrimento físico e espiritual interagia no contexto de cada um curando, exorcizando, ministrando conforto e exortando.
Em sua tarefa não só aliviava os “cansados e sobrecarregados” (Mt 11.28) mas também ao fazê-lo, atraía para si a atenção de muitos que testemunhavam a operação de sinais e milagres. Tanto as palavras quanto os atos sobrenaturais de Jesus eram incomparáveis. Ninguém, nem antes ou depois dele foi igual em palavras ou poder (Mt 13.54).
O ministério de Cristo causou um impacto profundo naquela sociedade judaica tão mística como era. Jesus atraiu sobre si os olhares de muitos curiosos. Pessoas que não estavam interessadas em ser discípulas e sim em serem entretidas com palavras sábias e eventos sobrenaturais. Uma prova disso é que mesmo tendo feito a multiplicação dos pães Jesus foi inquirido pelo povo a fazer um sinal para provar que estava certo em seu discurso: “Então, lhe disseram eles: Que sinal fazes para que o vejamos e creiamos em ti? Quais são os teus feitos?” (Jo 6:30)
Foi por causa do entretenimento que Jesus podia proporcionar que Herodes se alegrou ao poder encontrá-lo a fim de julgá-lo: “Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal.” (Lc 23.8)
O povo não estava atrás de um mestre, e sim, de alguém que pudesse entretê-lo. A mesma questão deve ser levantada em nossos dias sobre a motivação das pessoas ao cultuarem a Deus. Não são poucos os que vão à igreja por causa simplesmente de uma boa música, ou porque ali podem desfrutar de amizades agradáveis ou porque o pastor fala de maneira aprazível. Embora todas essas coisas possam verdadeiramente ser desfrutadas pelo cristão, elas, em si, não devem constituir motivação primária para o cristão genuíno.
B. Satisfação de suas necessidades
A popularidade já anteriormente descrita acompanhou Jesus desde o seu primeiro milagre. Ainda no início de seu ministério, estando Jesus em Cafarnaum, trouxeram todos os doentes e endemoninhados da cidade para que fossem curados e libertos por Jesus (Mc 1.32). A Bíblia descreve o assédio do povo por causa disso: “Toda a cidade estava reunida à porta.” (Mc 1.33)
Em outra oportunidade, seguiram Jesus porque ele havia multiplicado os pães. Mas dessa vez, Jesus não se silenciou a respeito, antes disse: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes.” (Jo 6.26) Jesus quis dizer que o motivo de o procurarem não estava no fato de terem reconhecido a sua divindade no sinal da multiplicação dos pães e sim simplesmente por terem satisfeito sua fome.
O problema com este tipo de atitude é que a procura por Cristo limita-se à necessidade. Depois que esta é satisfeita Cristo é desprezado como anteriormente. Isso aconteceu durante todo o ministério de Jesus e mais claramente foi visto no final de sua vida. A mesma multidão que no domingo de ramos ovacionava-o dizendo “Hosanas ao que vem em nome do SENHOR” (Jo 12.13) foi capaz de apenas cinco dias mais tarde declarar diante de Pilatos: “Fora com este! Solta-nos Barrabás!” (Lc 23.18).
Há aqui uma implicação muito séria para aqueles que se denominam cristãos em nossos dias. Vivemos em um país de maioria católica, mas que, no entanto, mostra o mesmo interesse por Cristo quanto os judeus de antigamente. Muitos somente freqüentam igrejas quando passam por problemas pessoais, doenças na família, desemprego, etc. São freqüentes até alcançarem a graça pretendida, e depois adeus.
C. Um Líder político e militar
A maioria dos judeus da época de Jesus não tinha uma noção clara a respeito do Messias. Para nós, que já contamos com o Novo Testamento em mãos, temos neste privilégio uma luz que pode ser lançada às declarações que o Antigo Testamento fazem sobre o Messias e assim entendê-las melhor. Mas eles não. E porque existem passagens ressaltando aspectos diferentes do ministério messiânico, ora como um servo sofredor, ora como rei, muitos preferiam interpretar a vinda do Messias como sendo o levante de um líder político que teria como missão libertar Israel do domínio do Império Romano e tornar o país uma potência mundial. Esse pensamento era predominante até mesmo entre os discípulos: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” (At 1.6)
O texto básico da lição mostra esse mesmo interesse dos judeus. Após multiplicar os pães Jesus retira-se sozinho para o monte porque sabia que viriam para torná-lo rei à força: “Jesus ficou sabendo que queriam levá-lo à força para o fazerem rei; então voltou sozinho para o monte.” (Jo 6.15 – BLH).
D. Imediatismo
Tudo o que vimos até aqui, a busca do povo por entretenimento, a satisfação das necessidades terrenas e enxergar em Jesus um líder político, mostra que os judeus tinham uma visão extremamente imediatista. Infelizmente um comportamento que claramente é repudiado por nosso Salvador tem angariado muitos adeptos em nossos dias.
Assim como acontece com nossos entretenimentos corriqueiros, muitos cristãos têm mudado de igreja com bastante freqüência. Basta haver uma “novidade” em outro lugar que há uma debandada de “crentes” para lotar as platéias. Por isso a necessidade de sempre ter que apresentar algo novo, pois assistir sempre o mesmo filme não tem graça. Assim, na igreja-entretenimento tem sempre uma nova atração. Nos últimos tempos temos visto essas atrações como dente de ouro, sopro do espírito, riso do espírito, bênção do emagrecimento, etc...
II. O que Jesus oferece
Jesus mostrou ao povo a maneira correta de se relacionar com Deus. Todo aquele que quer praticar a verdadeira religião tem que ouvir as suas palavras. A grande multidão que acabara de presenciar a multiplicação dos pães e dos peixes, depois do discurso de Jesus, se resumiu a apenas doze: os apóstolos. Parece que as palavras de Jesus não fizeram muito sucesso naquela época, segundo alguns padrões modernos. Vejamos um resumo de seu discurso naquela oportunidade:
A. Prioridade correta
O povo daquela época talvez fosse mais sofrido ainda do que o do presente. A maioria dos trabalhadores ganhava o mínimo para não morrer de fome e não existiam direitos trabalhistas, nem dias de descanso ou férias. Jesus sabia disso e por isso, citou o esforço realizado por eles como sendo uma boa base daquilo que se deve fazer “…Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará;” (Jo 6.27).
Com isso Jesus não desprezou o engajamento do crente nesta vida, quer no trabalho, estudo ou demais afazeres. Jesus estava estabelecendo prioridades para a vida. Os bens materiais têm o seu lugar pois Deus sabe do que necessitamos. Paulo escreveu: “Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez;” (Fp 4.11-12).
Enquanto cresce por aí, o número daqueles que enfatizam as riquezas como prova da bênção de Deus, Jesus procurou ressaltar o maior de todos os tesouros, o Reino dos céus. Para mostrar seu valor, ele o comparou a um homem que achou uma pérola de grande valor e vendeu todas as que possuia para adquiri-la (Mt 13.45-46). O Reino de Deus é a comida “que subsiste para a vida eterna”. Esta é a prioridade do cristão. “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; (Mt 6.19-20)
B. Fé verdadeira
“Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: Que faremos para realizar as obras de Deus? Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.” (Jo 6.28-29)
Quando Jesus os confrontou sobre a necessidade de terem o Pão da Vida enviado por Deus e não o pão que perece, a multidão já meio incomodada o inquiriu sobre como poderiam realizar as obras de Deus.
Faz parte da natureza humana uma disposição interior de acreditar em algum deus. Embora isso estivesse perfeito em Adão, com a queda também foi distorcido. O ser humano sente a necessidade de adorar alguma coisa, mas sozinho não consegue enxergar o verdadeiro Deus. Jesus mostrou ao povo que apesar de serem muito religiosos ainda não haviam acertado o alvo da verdadeira religião ou da verdadeira adoração ao Pai. Por isso precisavam dele. Jesus era o Pão que havia descido do céu para ser definitivamente alimento para o povo separado de Deus.
Algumas lições devem ser extraídas dessa idéia. Jesus, em última análise, ensinou que a fé verdadeira estava ligada à dependência (Jo 15.5) e intimidade (Jo 10.1-18) e não a milagres ou riquezas.
A própria conclusão “Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos.” (Mt 22.14) Enquanto Jesus fez maravilhas como a multiplicação dos pães, a multidão o seguiu e até mesmo tentou proclamá-lo rei. Quando mostrou seu pecado e o caminho da vida eterna, murmuraram (41), consideraram seu discurso muito duro (60) e a grande maioria o abandonou (66).
De uma numerosa multidão (2) sobraram apenas doze (67). Aqueles doze ficaram porque tinham uma motivação diferente: “…só tu tens as palavras de vida eterna” – disse Pedro. Isso é fé verdadeira e o único cimento que de fato prende o crente a Deus.
Considere sobre as razões de você seguir a Deus. Estão ligadas prioritariamente à vida eterna? Ou será que seus motivos estão mais ligados aos da numerosa multidão que aparentemente seguia a Jesus?